"Quando Tim Butcher anunciou que ia partir para uma aventura ao coração (fragmentado) de África, quem o ouviu não deixou de manifestar o seu receio e deixar avisos para que voltasse atrás na decisão.
Porém, inspirado pelas explorações do Dr. Livingstone bem como por histórias que ouvia da mãe, que viajara pelo Congo nos anos 50, Tim Butcher parte mesmo para esse lugar que todos achamos que não pode existir, não devia existir, mas que existe e é chocante.
Seguindo os passos de Henry Morton Stanley, o jornalista-aventureiro britânico, Tim Butcher parte assim, sozinho, na sua moto, levando apenas consigo uma piroga e 4.000 dólares escondidos nas botas.
Foi confrontado com um país “subdesenvolvido”. Deu de caras com um lugar com mais passado que futuro e onde os raros trechos de asfalto são usados não para o trânsito de veículos mas para afiar facões. Demorou 44 dias a percorrer 2.011 km.
Passou por uma aldeia onde a sua Yamaha foi recebida como o primeiro veículo motorizado em 20 anos. Pelo caminho, em que a floresta - e não as cidades - oferece o refúgio mais seguro, deparou-se com homens armados e esqueletos por enterrar.
Passou também pelo porto de Ubundu, onde Humphrey Bogart e Katharine Hepburn filmaram "Uma Aventura na África" em 1951. Naquela época era um local encantador e o único conflito era para conseguir um quarto com sacada. Hoje, mesmo após o chamado acordo de paz, é uma cidade vazia tomada pelo medo, e Butcher teve de partir à pressa…. Afinal, estava num dos países mais perigosos da Terra."
O projecto do autor é completamente "tresloucado" e o seu trajecto foi praticamente todo no Zaire, actual República Democrática do Congo, do pós-guerra civil. Em comparação com a República do Congo, onde me encontro, tenho a sensação que é mais ou menos tudo igual... vezes 100. Para o bem e para o mal... Na riqueza, na brutalidade, em tamanho, em diversidade, em desperdício e em destruição...
Os países desta região foram muito marcados pela brutalidade dos regimes coloniais, principalmente o Belga, que embora tenha desenvolvido o pais, acabou por fazê-lo à custa do uso da força e nunca preparando um futuro sem a sua presença. Quando os Belgas foram forçados a abandonar as suas possessões Africanas, o pais viu-se sem um corpo dirigente capaz de governar a imensidão do território, a riqueza natural e as estruturas do pais. Depois veio a governação de Mobutu Sese Seko e toda a sua excentricidade, luxuria e a "máquina" de corrupção que cresceu á sua volta. A seguir veio a guerra e os Kabila's e tudo se desmoronou...
O pais encontra-se completamente devastado, afogado numa espiral descendente de insanidade, brutalidade, desperdício e destruição... Sendo um dos maiores países de África, é hoje dominado pela influência militar de dois países relativamente pequenos e pobres, o Uganda e o Ruanda.
As Nações Unidas nunca se atreveram a tentar intervir num território tão perigoso e inóspito e apenas têm algumas missões de paz e auxílio ás populações, completamente insignificantes face à dimensão da catástrofe. Para agravar a situação, surgem novas formas de exploração com origem nos gigantes asiáticos (Índia e China) e surgem novos fenómenos como o Coltan (muito bem ilustrado NESTE documentário)
A República Democrática do Congo era mais desenvolvida em 1900 que hoje!!! Parece incrível, mas é mesmo verdade. Todas as infraestruturas deixadas depois do abandono do regime colonial foram destruídas e o pais encontra-se completamente inoperante...
O Livro é uma autêntica enciclopédia de pequenas histórias e eventos que ilustram a surrealidade do que tem acontecido a alguns países africanos... A corrupção, a miséria, a falta de condições de vida das populações, os esforços que se fazem por meia dúzia de dólares, o baixo valor da vida humana, o desrespeito pelos direitos mais fundamentais da existência humana, a brutalidade e os abusos de poder da classe dominante, etc...
Resumindo, em 2004, não muito diferente do que se passa em 2009, o pais estava completamente destruído, sem electricidade, estradas ou meios de transporte, água ou comunicações.
Mesmo não sendo passado na República do Congo, é sobre o Rio Congo e dá para perceber a forma de pensar e viver dos povos desta região. Li-o calmamente, para tentar absorver e compreender estes países... É mesmo devastador!!! Chega a revoltar e há muitas coisas que aos olhos de um Europeu Ocidental são completamente incompreensíveis e inconcebíveis, mas aqui as coisas são mesmo diferentes...
Recordo as palavras de um habitante de uma das cidades junto ao rio Congo, nascido no Zaire mas de ascendência Grega:
"Onde acaba a lógica, começa o Congo..."
É difícil de acreditar, mas parece ser mesmo verdade... :(((
Recomendo MUITO a todos os que tenham um bocadinho de interesse em conhecer a realidade destes países.


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